A competição entre potências, conflitos globais e a necessidade de cadeias de suprimentos mais resilientes marcaram o fim de um período de estabilidade econômica. Segundo o professor de Relações Internacionais Oliver Stuenkel, durante a abertura do Fórum Encadear, realizado pelo Sebrae em São Paulo, o risco geopolítico deve ser incorporado permanentemente ao planejamento estratégico de empresas, afetando investimentos e a escolha de fornecedores.
A nova ordem global e o papel do Brasil
Stuenkel destacou que a hegemonia de uma única potência é uma exceção histórica e que o mundo vive agora um cenário multipolar. A disputa entre Estados Unidos e China, somada a preocupações com a segurança nacional, forçou uma reorganização produtiva. O especialista ressaltou que, embora o comércio global continue, as empresas precisam reduzir dependências e estabelecer planos de contingência.
Nesse contexto, o Brasil surge como um possível parceiro estratégico para a diversificação de mercados, devido à sua posição diplomática neutra e boas relações com diversos blocos. Contudo, o país permanece vulnerável a choques externos, como a crise no Estreito de Ormuz, que impacta diretamente o agronegócio nacional pela dependência de fertilizantes importados.
Adaptação nas cadeias produtivas
O gerente nacional de Acesso a Mercados do Sebrae, Carlos Eduardo Santiago, observou que as mudanças globais geram desafios, mas também oportunidades para pequenos negócios. Grandes empresas, como Embraer, Danone, L’Oréal e Globo, já estão ajustando suas relações com fornecedores, exigindo não apenas qualidade e preço, mas também inovação, sustentabilidade e conformidade tecnológica.
A Embraer, por exemplo, foca na qualificação de sua rede de fornecedores para garantir que a cadeia acompanhe a velocidade de produção e os padrões de certificação aeronáutica. De forma semelhante, a Danone e a L’Oréal priorizam o desenvolvimento de fornecedores com metas de impacto socioambiental e agricultura regenerativa.
A Globo, por sua vez, adota uma estratégia de segmentação, reconhecendo os diferentes níveis de maturidade entre seus 40 mil fornecedores para oferecer capacitação adequada. O evento reforçou que a adaptação a padrões ESG e certificações técnicas é fundamental para que pequenas e médias empresas permaneçam competitivas e consigam integrar as cadeias de valor de grandes corporações.